Distância física e simbólica molda o acesso de jovens da Baixada à cultura
- Júlia Lisboa

- 1 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

Para muitos jovens da Baixada Fluminense, a ideia de circular em espaços culturais de “alta cultura” no Rio, como museus, centros literários, arquivos históricos, parece distante. E essa distância não é apenas geográfica: é econômica, simbólica e política. Quando esses equipamentos estão concentrados em bairros como Botafogo, um dos mais valorizados da cidade, o abismo se aprofunda.
A Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), instituição federal vinculada ao Ministério da Cultura, é exemplo disso. Reconhecida nacionalmente pelo acervo, pela promoção de debates e pela preservação da memória intelectual brasileira, ela permanece pouco presente no cotidiano de moradores periféricos. A gratuidade dos eventos, por si só, não elimina os obstáculos que moldam quem chega e, sobretudo, quem não chega, à programação.
A GEOGRAFIA DA DESIGUALDADE CULTURAL
A oferta cultural do Rio de Janeiro segue concentrada nos bairros mais centrais e, sobretudo, na Zona Sul. A Casa de Rui Barbosa não é exceção: localizada na Rua São Clemente, em Botafogo, ela faz parte de um pólo histórico de instituições tradicionais que incluem museus, arquivos e centros literários. Mas, para moradores de bairros como Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti, Duque de Caxias e a Zona Oeste, chegar até lá pode significar duas horas de transporte público, três integrações e um custo que ultrapassa o valor de uma refeição.
Essa percepção não nasce apenas da vontade individual, ela é construída pela combinação de tempo de deslocamento, custo do transporte, sensação de não pertencimento e falta de incentivo cultural por parte das prefeituras e do governo estadual. Quando um trajeto até Botafogo pode levar até duas horas e envolver três modais de transporte, a simples ideia de frequentar a Fundação Casa de Rui Barbosa já se torna, para muitos, algo fora de alcance.
Para Wendril, estudante de Letras da UFRRJ e morador de Nilópolis, essa barreira é concreta: “Os transportes são uma barreira real. Se você tiver família, se for mais de uma pessoa, o gasto até chegar ao metrô já é alto. Uma família de quatro pessoas, para ir e voltar de um centro cultural, gasta mais de cinquenta reais”, afirma. Ele conta que, mesmo quando consegue fazer o trajeto, a distância reduz o tempo possível dentro do museu ou centro cultural: “Com sorte, saindo da Baixada, leva quase uma hora. É desmotivador porque eu teria que sair mais cedo do museu.”
CULTURA GRATUITA QUE NÃO CHEGA A TODOS
A entrada no museu e toda sua programação são gratuitas. Porém, gratuidade não basta para garantir acesso real. O custo invisível do deslocamento mantém milhares de pessoas afastadas dos espaços culturais.
Estudos do IPEA indicam que os maiores investimentos em mobilidade urbana não resultaram em ganho de acessibilidade igual para todos: os moradores de baixa renda nas regiões periféricas foram justamente os que menos se beneficiaram.
FALTA DE INCENTIVO CONSTRÓI DESINTERESSE
Não se trata apenas da ausência física. Muitos jovens da Baixada não têm interesse em visitar museus e esse desinteresse não é uma responsabilidade individual, mas o resultado direto da falta de incentivo cultural das prefeituras locais e do próprio governo estadual.
Aulas de arte precarizadas, escolas sem atividades culturais, ausência de transporte dedicado a visitas técnicas e quase inexistência de programações contínuas voltadas à juventude periférica criam um cenário onde a cultura aparece como algo distante, elitizado e irrelevante para a vida prática.
Como consequência, quem se interessa enfrenta barreiras ainda maiores: falta de apoio institucional, escassez de projetos de formação, ausência de bolsas, invisibilidade e dificuldade de circular nos espaços onde a cultura é legitimada.
“É fundamental que a criança tenha contato com a cultura desde muito cedo, porque isso amplia o vocabulário, a imaginação e até a forma como ela percebe o mundo. Falta transporte, falta incentivo, falta política pública. O resultado é que as crianças começam com menos oportunidades de imaginar, de conhecer e se reconhecer na cultura que deveria ser delas também", afirma Ana Eduarda Gonçalves, professora de Educação Infantil em Niĺopolis
A CASA DE RUI E O IMAGINÁRIO DA ELITE LETRADA
Além da barreira geográfica, existe outra menos visível: a simbólica.
Para parte dos moradores da periferia, a Fundação, que é dedicada à memória de uma elite, parece distante da cultura popular e das periferias.
No entanto, eventos recentes mostram esforços de abertura: encontros de culturas indígenas, seminários sobre políticas culturais e debates ambientais têm atraído novos perfis de público. Ainda assim, a presença de moradores da Baixada continua tímida.
A pergunta é: A instituição está sendo vista como um espaço para todos?
Ou ainda carrega a imagem de um lugar reservado para a elite intelectual?
QUANDO A CULTURA NÃO CHEGA, A DESIGUALDADE CRESCE
O distanciamento entre as periferias e os espaços de alta cultura não nasce no indivíduo e sim nos grupos sociais que continuam perpetuando a divisão de classes nesses locais. Além disso, existe responsabilidade por parte do estado, uma vez que a falta de investimento cultural contínuo nas cidades da Baixada Fluminense impede que jovens vejam a cultura como possibilidade profissional, como campo de pertencimento ou como espaço legítimo onde suas histórias também importam.
E quando o poder público não coloca a cultura na pauta, não oferece transporte, não fortalece projetos locais, não cria políticas de circulação cultural, ele reforça o ciclo do afastamento.
Essa ausência contribui para naturalizar a ideia de que a cultura “não é para todos” e reproduz a desigualdade que mantém elites próximas dos espaços de legitimidade e jovens periféricos afastados deles.
“Quando não temos o acesso a essa cultura, a desigualdade não só aumenta como se torna parte do cotidiano”, afirma Eliel Severiano, graduado em ciências sociais e morador de Belford Roxo. “A mensagem que fica para quem cresce na periferia é a de que certos lugares não foram feitos para a gente. E quando o Estado não investe, não cria políticas de circulação, não fortalece o que já existe nas cidades da Baixada, ele reafirma essa sensação de exclusão. A gente cresce achando que cultura é privilégio, quando, na verdade, deveria ser direito.”
CAMINHOS PARA APROXIMAR A BAIXADA E A ALTA CULTURA
A ampliação do acesso cultural passa, necessariamente, pelo fortalecimento de ações que aproximem, as instituições de referência, das vozes periféricas que historicamente ficaram distantes dos grandes circuitos culturais do Rio. A realização de ações que permitam artistas desses territórios a ocuparem o espaço físico da instituição rompe com a lógica de que apenas grupos de regiões mais valorizadas podem ser legitimados por instituições culturais.
Além disso, medidas como o incentivo e apoio para visitas escolares das periferias e a criação de programações contínuas online que dialoguem com os jovens da periferia ampliam o acesso de forma concreta. Quando iniciativas assim são implementadas, ajudam a desconstruir a ideia de que instituições como a Casa de Rui Barbosa pertencem apenas aos territórios nobres da cidade e reafirmam seu compromisso público, abrindo portas para que a produção cultural da Baixada e de outras periferias seja vista, ouvida e valorizada, fazendo com que esses espaços se tornem também territórios de pertencimento para quem sempre esteve distante deles.
No final, a distância entre a cultura presente na Zona Sul e a Baixada é mais que geográfica: é histórica e estrutural. Ela envolve classe, território e a própria forma como a cultura é distribuída no Brasil. Ao mesmo tempo, a Fundação Casa de Rui Barbosa é um dos espaços com maior potencial de aproximação pelo acervo, pela importância política, pela abertura a debates contemporâneos e pela crescente vontade de se conectar com novos públicos.




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