MAR celebra força do povo Bantu em exposição
- Juliane Anselmo

- 2 de dez. de 2025
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O Museu de Arte do Rio (MAR) abriu as portas este ano para uma das mostras mais simbólicas de sua programação: "Nossa Vida Bantu", uma exposição que reúne cerca de 50 obras de artistas brasileiros, africanos e afro-diaspóricos para celebrar e reconhecer a profunda influência do povo Bantu na formação cultural do Brasil. A mostra, inaugurada no fim de maio, se tornou rapidamente um dos destaques da cena artística carioca, e também um convite para revisitar a ancestralidade que molda o país.
O termo Bantu abrange um conjunto diverso de povos originários da África Central e do Sudeste, conhecidos por suas línguas pertencentes à família banta e por tradições ligadas à espiritualidade, agricultura, música, metalurgia e organização comunitária. Traídos pelo tráfico transatlântico, muitos deles foram trazidos à força para o Brasil, marcando profundamente nossa língua, culinária, religiosidade, expressões culturais e modos de viver.

No MAR, essa herança aparece de maneira contemporânea, poética e crítica. Pinturas, esculturas, instalações, vídeos e paisagens sonoras constroem uma narrativa que evidencia o quanto o Brasil é atravessado por referências Bantu, muitas vezes invisibilizadas pelo apagamento histórico, porém ainda presentes no cotidiano. Entre os destaques da exposição está a releitura da cantiga “Escravos de Jó”, que ressignifica elementos da infância para revelar simbologias de resistência e memória das mulheres escravizadas. Em outros espaços, obras abordam espiritualidade, língua, território e ancestralidade, mostrando como o legado Bantu se espalha por toda a cultura afro-brasileira.
A curadoria, assinada por Marcelo Campos, Amanda Bonan e Tiganá Santana, reforça a ideia de que “vida Bantu” não é um conceito distante ou arqueológico e sim cotidiano. Está nas palavras que usamos (“dengo”, “caçula”, “moleque”), nos ritmos que dançamos, nos alimentos que preparamos, nas religiosidades que persistem e nas formas de lutar e existir. A exposição propõe que olhar para o legado Bantu é também olhar para o Brasil tal como ele realmente é.
LINHA DO TEMPO BANTU: DA ÁFRICA AO BRASIL CONTEMPORÂNEO
Séculos I a V: Expansão Bantu pela África Subsaariana
Povos falantes de línguas bantas iniciam um grande movimento migratório pelo continente, ocupando regiões da África Central, dos Grandes Lagos e do Sudeste africano. Esse processo consolida culturas baseadas na agricultura, metalurgia, espiritualidade comunitária e diversificação linguística.
Séculos IX a XV: Reinos e impérios Bantu se fortalecem
Formam-se importantes estruturas políticas como os reinos do Kongo, Lunda, Luba e Ndongo. Esses territórios desenvolveram complexos sistemas de comércio, conhecimento mineral, arte sacra e formas de organização comunitária que influenciariam profundamente as sociedades afro-diaspóricas.
Início do século XVI: Primeiros contatos com europeus
Exploradores portugueses iniciam relações com o Reino do Kongo e outras sociedades da costa atlântica africana. As tensões políticas e alianças forçadas resultam na intensificação do tráfico de pessoas escravizadas.
Séculos XVI a XIX: Deportação massiva de povos Bantu para o Brasil
Durante o tráfico transatlântico, milhões de africanos escravizados são enviados para as Américas. Estima-se que mais da metade dos africanos que chegaram ao Brasil eram de origem Bantu, especialmente de regiões que hoje correspondem a Angola, República Democrática do Congo e Moçambique. No Brasil, eles atuam principalmente na mineração, agricultura, construção, trabalho urbano e atividades domésticas.
1549–1800: Influências culturais começam a se enraizar
Palavras do kimbundu, kikongo e umbundu passam a compor a língua portuguesa do Brasil. Elementos religiosos originam práticas como o batuque, o candomblé de Angola, o cabula e diversas religiosidades de matriz africana no Sudeste e no Norte.
Século XIX: Resistências e quilombos Bantu
Fortalece-se a criação de quilombos e irmandades religiosas. A tradição de organização comunitária Bantu estrutura redes de solidariedade, fugas coletivas, territórios independentes e diferentes formas de resistência cultural e política.
1888: Abolição da escravidão e apagamento oficial
Após a Abolição, o Estado brasileiro implementa políticas de branqueamento e exclusão que tentam apagar ou criminalizar manifestações culturais Bantu, como rodas de capoeira, batuques, terreiros e cultos ancestrais.
Século XX: Reafirmação cultural e intelectual
Movimentos negros urbanos, escolas de samba, capoeiristas, pesquisadores e lideranças religiosas impulsionam o renascimento da memória Bantu no Brasil. Nas décadas de 1970–90, cresce o interesse acadêmico por línguas, religiosidades e tradições afro-brasileiras.
Século XXI: Patrimônio e resistência contemporânea
Com o reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial pela UNESCO (2017), e com o fortalecimento de museus dedicados à memória negra, como o MAR e o Museu da Diáspora Africana (MUDA), a cultura Bantu passa a ocupar novamente o espaço público, artístico e político.
QUANDO A AVENIDA VIRA MUSEU
A mostra encontra eco direto no Carnaval de 2025, quando a Estação Primeira de Mangueira levou para a Sapucaí um enredo dedicado justamente à presença e à permanência da cultura Bantu no Rio de Janeiro, da chegada forçada pelo Cais do Valongo às práticas culturais que permanecem vivas na cidade. No desfile, o samba ecoou como declaração de identidade e reparação histórica. Um dos trechos mais marcantes dizia:
“Vem de longe a voz que o tempo não calou / Sou Bantu, sou memória, sou o Rio que sonhou / No batuque, a liberdade fez morada / Minha raiz jamais será apagada.”
2025 COMO ANO DA REAFIRMAÇÃO CULTURAL AFRO-BRASILEIRA
A convergência entre a mostra do MAR e o enredo da Mangueira faz de 2025 um ano simbólico para a cultura afro-brasileira. Tanto no museu quanto na avenida, o Brasil se reencontra com suas raízes, reocupando narrativas, valorizando saberes e reposicionando a herança Bantu no centro da identidade nacional.
Enquanto o desfile emociona pela potência coletiva, a exposição aprofunda o olhar, convidando à escuta, ao questionamento e ao reconhecimento das histórias que estruturam o país.
A exposição permanece em cartaz no Museu de Arte do Rio, reforçando a urgência de revisitarmos nossa história e de reconhecermos a força de um legado que nunca deixou de pulsar. É um chamado para aprender, sentir e honrar a ancestralidade que vive em nós.




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