Conheça o BXD Partido a banca de rap que veste a camisa da Baixada
- Enzo Antunes

- 12 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

A Baixada Fluminense, assim como toda a periferia, tem sua imagem marcada por cenas de violência. Mas, por baixo das inúmeras notícias ruins, a região esconde novos talentos. De Slipmami e Ebony à Ludmilla e o duo OutroEu, não são poucos os artistas que são originados no local, um deles é o grupo BXD Partido.
Composto por cerca de 10 pessoas, o BXD Partido se define como uma ¹banca de rap ou um ²selo. Entre os inúmeros membros, estão: Mont, Orin, Abreu, Drope, Canola e Thi, contando com a contribuição artística de outros parceiros.
O COMEÇO DE TUDO
Mont conta em entrevista ao Cultura Carioca que tudo se iniciou com ele, em 2023: “Eu já tentava escrever algumas músicas... Aí eu resolvi mostrar pro Thi e pro Orin, outros dois amigos nossos e a coisa foi crescendo”. Então, o quinteto passou a ocupar as madrugadas que antecediam suas folgas no salão da avó de Mont.
No começo, eles faziam as letras em cima de ³beats prontos da internet. Conforme o projeto ia crescendo, mais pessoas foram se juntando e, atualmente, eles contam com Drope para fazer arranjos, dando um caráter mais autoral ao BXD Partido. O investimento financeiro também fez parte. Cada membro juntava o que podia com seus trabalhos e se organizavam para dar uma estrutura melhor para a banca.
Desde o início os meninos contam com a parceria dos organizadores da Batalha do Coreião, que promovem batalhas de rap no bairro Coreia, em Mesquita e sempre se mostraram um espaço aberto para o grupo apresentar suas rimas.
PROCESSO DE CRIAÇÃO

Com o passar do tempo, o grupo foi ganhando novos membros, angariando uma estrutura um pouco mais elaborada e acabaram tendo um novo Quartel-General: A casa de Abreu. Os amigos ficam por lá e, enquanto alguns conversam, outros trabalham na letra.
Cada um possui um jeito muito particular: Uns testam um ⁴freestyle em cima de algum instrumental, outros já chegam com alguma composição ou escrevem na hora mesmo, sempre pegando como inspiração situações do dia-a-dia. Não importa o lugar, se a ideia surge, o bloco de notas se enche de rimas.
O último ⁵Extended Play do BXD Partido, “Pensando Demais”, está disponível no canal do selo no YouTube, contando com um vídeo dos bastidores da produção. O projeto explora experiências e dilemas de um jovem periférico. Com rimas vulneráveis, o EP esmiúça os danos de uma rotina cansativa, repleta de válvulas de escape, pressão e violência.
“É muito plural. Cada experiência, cada letra que escrevemos, o jeito de cantar, a métrica que a gente usa. Cada artista aqui tem uma característica muito única que vai afetar diretamente no processo criativo, entendeu?”, destaca Mont.
AMIZADE COMO ALICERCE, MÚSICA COMO ESCAPE

Da esquerda para direita: Mont, Orin, Drope, Thi, Abreu. - Fonte: Acervo Pessoal
O laço entre os membros é um fator essencial dentro do BXD. Entre muitas declarações de afetos durante a entrevista, uma fica marcada: “Desde que vocês soltaram as prévias, eu não escuto mais Spotify, só vocês...”, disse Abreu, “Eu sou muito fã desses caras”.
Eles se enxergam também como as próprias referências. Thi conta que, no início, tinha dificuldade em encaixar as palavras nas batidas e observar Mont fazendo foi o que o inspirou a tentar melhorar.
Toda essa rede de apoio que eles montaram entre si é essencial quando se vive em um contexto onde o apoio à arte é praticamente nulo, como na Baixada:
“Com rotina cansativa, você só vai se cansando e a tendência é desistir. É uma tarefa muito árdua se unir, persistir e tentar fazer”, desabafa Orin.
Canola ainda comentou brevemente que, em determinado momento, as atividades do grupo foram pausadas, mas que a amizade deles tornou possível que o BXD Partido retomasse de onde parou.
O rap vem em um lugar de desabafo. Para Orin, as sessões funcionam como um descarrego: “Tu trabalha a semana toda e quando finalmente a sessão chega, tudo fica mais leve. Você joga todo o seu sentimento ali”. O som deles une duas características latentes: O amor pelos amigos, pela música e o ódio pelo cotidiano cansativo imposto pelo sistema.
OBJETIVOS DO GRUPO
Assim como grande parte da população periférica, o desejo do grupo é conseguir garantir uma qualidade de vida boa para a família e alcançar o sucesso juntos. Porém os sonhos não param por aí.
Mont, Orin, Canola, Drope, Abreu e Thi rejeitam firmemente a ideia de negligenciar o lugar de onde vieram após ganhar reconhecimento do grande público, ressaltam a importância de levar o rap para mais baixadenses e sonham com o incentivo à arte para que jovens periféricos possam sonhar e se manter longe da criminalidade.
Além de traçar essa grande meta, BXD Partido deseja quebrar fronteiras. Como disse Orin, o objetivo é “levantar a área”, mostrar que a Baixada Fluminense possui grandes vozes potentes esperando para serem escutadas e explorar ainda mais a versatilidade dentro das suas músicas.
BXD Partido vai muito além de um selo ou uma banca, são um grupo com pouco mais de dez garotos que vestem com orgulho e honra a camisa da Baixada, que ousaram sonhar apesar de todos os empecilhos, que constroem letras que qualquer morador de comunidade ou periferia consegue se identificar. Eles viram na rima uma chance de desabafar, externalizar dores e anseios, de escancarar a realidade e, principalmente, de resistir.
Notas de rodapé
¹Uma banca de rap consiste em um grupo de pessoas escrevendo músicas e se unindo para produzi-las.
²Um selo é uma marca que produz, distribui músicas e lança artistas, geralmente focando em um nicho específico.
³É a batida, u
m padrão de ritmo que faz parte da música
⁴Letras improvisadas na hora
⁵É uma gravação musical com mais faixas do que um single, mas menos do que um álbum completo. Geralmente tem entre 4 e 6 músicas e dura de 15 a 30 minutos.




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